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Um católico tem de ser um presidente católico?
27.01.2016


Marcelo Rebelo de Sousa venceu "sem espinhas" as eleições presidenciais do passado domingo. Não foi uma surpresa, nem sequer o facto de ter sido à primeira volta. Apesar dos muitos apelos à necessidade de uma segunda volta, a verdade é que os candidatos à esquerda eram demasiados e espartilharam os votos, deixando o caminho aberto para uma vitória folgada e sem grande contestação do professor Marcelo, apenas ultrapassado pela taxa de abstenção, que continua a níveis preocupantes.

O professor/político/comentador fez uma campanha discreta, sem grandes apontamentos mediáticos, nem sequer o apoio declarado dos responsáveis partidários de direita, campo natural do candidato, que assim andou a tentar, com notório sucesso, ganhar pontos também à esquerda. Uma estratégia que, consciente ou não, começou a ser traçada quando iniciou o seu percurso de comentador televisivo há anos, onde criou uma imagem de imparcialidade que o ajudou a chegar a eleitores de todos os espectros políticos.

Muito vincada no novo Presidente da República é também a sua fé. Já admitiu que rezava o terço todos os dias, e eram habituais as suas presenças em eventos de âmbito religioso, maioritariamente católico, onde nunca se coibiu de falar da sua fé, tendo inclusive participado, já como candidato a Belém, nas "Conversas" sobre Deus com Maria João Avillez na Capela do Rato, em Lisboa. Terá sido essa influência que o levou até a citar o Papa Francisco no seu discurso de vitória. Por via desta religiosidade assumida, foram notórias algumas críticas mais recentes ao comportamento do candidato no que toca a assuntos polémicos para a Igreja, como é o caso da eutanásia e da adoção por casais do mesmo sexo, diploma que, reconheceu em entrevista, promulgaria sem reservas.

Esta disponibilidade para adotar uma agenda mais de esquerda causou espanto e consternação na ala católica do país, e será curioso perceber se o presidente Marcelo irá ter o mesmo comportamento e as mesmas opiniões do candidato Marcelo, que parecem ir contra as supostas opiniões do católico Marcelo. A fé não é algo privado, ou que se utilize apenas no recanto da igreja. A fé influencia todos os aspetos da vida de um católico, e deveria sobrepor-se a todos os outros interesses, ou influenciá-los, e isso implica que, em determinados assuntos, haja uma posição clara e inequívoca, que certamente chocará com a população que não é católica.

​Pode dizer-se que o presidente da República tem como função garantir o cumprimento da Constituição, mas o acolhimento de propostas que colocam em causa o direito à vida atenta contra direitos constitucionais, segundo o ponto de vista de parte da população. Será curioso perceber que relação manterá o presidente com a fé que sempre disse professar, e até que ponto os seus valores católicos foram colocados em causa apenas para efeitos de campanha...