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Um dos cônjuges requer cuidados especiais, e agora?
22.06.2020
O modo de vida adotado pela sociedade, o sedentarismo, a vida de stress constante resultante do corrupio da rotina diária, a persistente sensação de falta de tempo, aliadas a uma alimentação menos cuidada são as principais causas para o aparecimento das enfermidades do Século XXI. São muitíssimas as doenças que se podem viver num lar de uma família, dependentes das situações que ocorrem, com mais ou menos grau de dependência, gravidade e duração. Apenas, como exemplo, destaco as doenças cardíacas, o cancro, as perturbações pulmonares e o AVC, com as suas inerentes consequências.

Ora bem, em artigos anteriores já falámos que é normal que um casamento tenha problemas de vez em quando. Mas, se um dos cônjuges aparece com uma doença crónica ou incapacitante, a realidade pode ficar mais exigente.
Qual é, então, a chave para permanecer feliz nestas circunstâncias?

Antes de tudo, devemos olhar para a doença como um inimigo do casal e não apenas do cônjuge que sofre. Afinal de contas, ambos vão ser afetados, mesmo que seja de forma diferente. Se um adoece, o outro irá ter de assumir novas responsabilidades. Quer isto dizer que, as expetativas da relação vão precisar de ser reescritas.

Todos nós somos um processo biográfico em construção. Amamos como somos[1]. Por isso, o nosso amor segue a nossa vida humana biográfica, ou seja, o nosso ciclo de vida. E, o amor conjugal não é diferente, é dinâmico, pode crescer e melhorar, pode inclusive tornar-se num amor maduro. A vida conjugal é assim, um espaço propício para viver o amor verdadeiro, que não se esgota, que ama hoje e que ama amanhã, mesmo quando traz problemas.

Creio que vale a pena contar-vos uma pequena história que li, há já algum tempo, mas que faz todo o sentido recordar agora. Viktor Frankl [2] estava na sua clínica, na companhia do marido de uma paciente, quando depois de conversarem sobre a atual situação (mulher com AVC, 40 anos de casamento, nada era o mesmo, sentia muito a sua falta), Frankl olha, olhos nos olhos do homem que estava à sua frente e diz:

- Vê-se, que ama profundamente a sua mulher. E, o melhor presente que lhe pode dar, é isto mesmo, aguentar este sofrimento de cuidar, de suportar a experiência que está agora a viver, que seja o Senhor e não a sua mulher.

De facto, o cônjuge saudável pode passar de companheiro e amante a enfermeiro ou cuidador, que acaba por ser um tipo de relação completamente distinta. Estes cônjuges não só perdem as relações de intimidade que tinham com o seu ente querido doente, mas também a profunda amizade se o seu companheiro ou companheira já não for capaz, emocional ou cognitivamente, de ser a sua pessoa de confiança.

Disto se deduz que, em cada situação, por mais difícil que seja, o amor conjugal pode ser preservado, melhorado e até restaurado, diria mesmo, reescrito. Terá de se aprender a amar de forma diferente. Apesar de não haver respostas fáceis para estas contrariedades que a vida às vezes traz, existem formas de diminuir os efeitos negativos das doenças e colocar a relação num terreno novo e mais forte a partir daí. Desenvolver virtudes como a fé, a caridade, a paciência e a abnegação, a prudência e a delicadeza proporcionará uma melhoria no sentido de vida, um sentimento valioso pelo trabalho que se está a fazer.
E claro, não nos podemos esquecer que, uma vez casados - sacramentalmente - homem e mulher num ato de vontade em total liberdade - esta será a vocação, na saúde e na doença, para sempre. Não há volta a dar!

[1] Pedro-Juan Viladrich em: «El amor conyugal entre la vida y la muerte. La cuestión de las tres grandes estancias de la unión».
[2] Criador do método terapêutico baseado na procura do sentido de vida. História adaptada.