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Um olhar para lá da pandemia
06.04.2020 16:23:00
O período de pandemia que estamos a atravessar tem colocado obstáculos e condicionalismos ao estilo de vida de grande parte das populações de todo o mundo. Os tempos são terríveis, e em países com maior dificuldade de conter a propagação do vírus, as mortes vão-se sucedendo a um ritmo frenético e aterrador.

Foto Adam Nieścioruk | Unsplash
Por aqui, a vida parou. Mas a verdade é que a pandemia e as restrições impostas criaram oportunidades no que diz respeito a mudanças nos nossos estilos de vida. Há dias, em entrevista, D. Jorge Ortiga afirmava à Família Cristã que há mudanças que têm de vir para ficar, porque são boas e desafiantes.

Mas que mudanças podemos observar?

Nestes dias de pandemia, a ida das pessoas às urgências por outras questões diminuiu mais de 50%, segundo noticiava há dias o Diário de Notícias. Seja por medo do vírus, seja por maior consciência, a verdade é que as pessoas deixaram de ir às urgências, e, apesar de alguma preocupação dos responsáveis de saúde, não há relatos de que isso tenha conduzido a um agravamento das condições de saúde dos portugueses. Aliás, os estudos feitos apontavam para que 40% das urgências atendidas nos hospitais fossem falsas, o que bate certo com esta diminuição. Para além disso, este hábito da consulta à linha Saúde 24 pode vir a ser muito útil nesse sentido no futuro.

Depois, quantos não eram os que se queixavam de não conhecerem os vizinhos, e que agora se apercebem das belas relações de amizade que tem sido possível forjar entre famílias de diferentes gerações, que comunicam, convivem e se ajudam mutuamente.

Circulam nas redes sociais vários testemunhos de como o recurso ao comércio local    tem sido uma solução que tem permitido maior rapidez nas compras, com um acréscimo de qualidade e apoio à economia local. Para além disso, aumentou imenso a quantidade de gente que faz (ou tenta, porque os sistemas têm estado a rebentar pelas costuras com o aumento) compras online, seja nas principais superfícies comerciais, seja noutras plataformas. Poupam tempo e organizam as compras de uma maneira inovadora para muitos.

Depois, o teletrabalho. A legislação já permitia há algum tempo que os trabalhadores fizessem o seu trabalho a partir de casa, mantendo a produtividade, mas garantindo muito maior qualidade de vida. Para alguns, significa um ganho de 2 a 3 horas diárias que perdiam em transportes e que agora poderão ser usadas para descanso, exercício físico ou simples tempo de qualidade em família, e sem diminuir o tempo de trabalho ou, claro, a produtividade. Muitas foram as empresas que, perante a emergência, tomaram a iniciativa de permitir isso aos seus funcionários, provavelmente algumas que, antes da pandemia, torciam o nariz.

Outra questão tem sido o isolamento dos idosos, um problema cada vez maior nas granes cidades e nas aldeias, que muitas juntas de freguesia têm procurado combater com o recurso a programas de apoio. Agora, com a crise, vemos, por um lado, um cuidado maior das famílias com os seus idosos, tratando de lhes comprar os bens essenciais, ou mantendo contacto à distância com as novas tecnologias, ou até dos próprios vizinhos, que se multiplicam em ações de acompanhamento e apoio.

Finalmente, dois assuntos particularmente importantes. Desde logo, a solidariedade internacional que deve gerar empatia. Os problemas pelos quais os países mais desenvolvidos estão a passar, com estas medidas de quarentena em casa, dariam quase vontade de rir a refugiados que vivem em tendas durante o inverno rigoroso, ou que não têm água potável ou acesso a medicamentos durante meses e anos. Esta aparente limitação pode e deve tornar-nos mais atentos aos problemas do mundo em vias de desenvolvimento, gerar maior solidariedade e, principalmente, gerar uma empatia que nos leve a tomar opções por adquirir produtos que não sejam feitos por mão de obra barata, escrava ou violada em todos os seus direitos fundamentais. Porque a vida, como vemos nesta pequena amostra que temos, custa muito a muita gente.

E a Igreja... a forma como hoje temos missas online a entrar-nos casa adentro, com o regresso à tradição da comunhão espiritual, deve fazer-nos questionar se esta não seria uma solução para comunidades que não conseguem ter o sacerdote para celebrar com elas todas as semanas. Um bom ecrã, condições de ligação, e todos poderiam celebrar eucaristia, nos bancos da igreja, em comunidade, com um sacerdote que, longe fisicamente, se fazia perto por meio das novas tecnologias e da comunhão espiritual, de que tanto se fala agora, e que faz parte da Tradição da Igreja. Não substitui a presença viva e física do sacerdote, nem nunca o poderá fazer, mas entre isto e nada... não fará sentido ser equacionado?

Todas as estas mudanças são possíveis de acontecer, mas após e só se encararmos este tempo de pandemia e quarentena com um espírito de reflexão que nos leve a uma mudança no rumo e ritmo das nossas vidas. Querermos operar esta mudança, em vez de ficarmos em stand-by, só à espera que tudo passe para voltarmos aos nossos hábitos antigos, pode fazer toda a diferença no futuro da nossa humanidade.