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Vaticano transfere bispo de Pemba e causa «surpresa» e «preocupação»
11.02.2021
O Vaticano anunciou hoje em comunicado que procedeu à transferência de D. Luiz Fernando Lisboa, bispo de Pemba, em Moçambique, para a diocese de Cachoeiro de Itapemirim, no Brasil, concedendo-lhe o título honorífico de arcebispo por mérito pessoal. O anúncio apanhou toda a gente de surpresa, em Moçambique e em Portugal, já que D. Luiz Lisboa tinha sido, nos últimos anos, uma voz ativa da Igreja na denúncia dos ataques terroristas que vêm acontecendo na zona de Cabo Delgado e que já provocaram centenas de mortes e mais de 560 mil refugiados, que fugiram do norte da província para a cidade de Pemba e arredores.

Foto Vatican News
Depois de sete anos à frente da diocese de Pemba, o Brasil é o destino do prelado. «Estamos surpreendidos, temos uma relação de trabalho com o D. Luiz e com a diocese, ele era a cara e a face dessa diocese, e, portanto, fomos apanhados de surpresa», reconhece Paulo Costa, porta-voz do grupo promotor do movimento por Cabo Delgado, que há pouco tempo, através de uma carta aberta, que juntou dezenas de organizações, exprimiu o «desejo de que o Governo português e a União Europeia se envolvam na solução da crise humanitária que atinge a região de Cabo Delgado, em Moçambique».
 
O grupo, composto pela Fundação Fé e Cooperação, Rosto Solidário, Fundação Gonçalo da Silveira, Cáritas, Centro Missionário da Arquidiocese de Braga, Ponto SJ, Fundação Ajuda a Igreja que Sofre e Comissão Nacional Justiça e Paz, exprime «preocupação» pela situação, que deixa a diocese de Pemba sem bispo, em sede vacante, entregue ao administrador apostólico D. António Juliasse Ferreira Sandramo, bispo auxiliar de Maputo. «É uma notícia que nos deixa, num primeiro momento, preocupados, mas não vemos razão para encontrar algo de crítico nesta mudança», referem, não querendo especular sobre as razões que levaram à mudança.
 
D. Fernando Luiz Lisboa tem sido uma voz crítica não apenas para denunciar os ataques terroristas, mas também para criticar a atuação do governo no apoio à população de Pemba, uma das províncias mas pobres do país. O bispo foi uma das primeiras vozes a alertar o mundo sobre a situação de Cabo Delgado. No ano passado, segundo notícias veiculadas pela imprensa moçambicana, ele foi acusado por indivíduos próximos do Governo de ser apoiante dos insurgentes, que aterrorizam Cabo Delgado, devendo por isso ser expulso do país, situação que foi amenizada depos de um encontro do prelado com o presidente moçambicano, Filipe Nyusi.
 
A verdade é que, ainda há pouco tempo, numa conferência organizada em Portugal pelo mesmo grupo promotor, D. Luiz falava da inoperância do Estado no apoio às populações e na incapacidade para resolver o problema dos ataques, pedindo uma intervenção externa, pedidos que se repetiram quando foi ouvido no Parlamento Europeu e em audiência com o Papa Francisco, cujas referências públicas à situação de Cabo Delgado ajudaram a criar maior consciência para este problema.


 
Paulo Costa reconhece que a Igreja em Cabo Delgado «perde força», mas está esperançado que possam surgir «outras vozes» para defender o povo. «Pode ser uma oportunidade de emergir outras caras e não apenas uma, mas várias», acrescentando que, da parte deste grupo de organizações portuguesas, «nós estaremos com todos os que estiverem ao lado dos que mais sofrem».

Em entrevista à Rádio Renascença, D. Luiz Lisboa refere que «jamais» pediria para sair da diocese. «Não! Jamais pediria para sair», diz. O prelado reconhece que a sau saíde poderá estar relacionada com ameaças feitas à sua pessoa. «Não somos ingénuos», «eu tive alguns recados, recebi uma ou outra mensagem através de outra pessoa, conselhos de alguém que está próximo: 'Olha senhor bispo, cuidado, não é assim... O senhor devia falar assim ou falar assado...' Recebemos essas coisas, isso acontece, mas quando a pessoa tem consciência do seu trabalho e tem a certeza do que está a fazer, que está correto, não se deixa amedrontar por essas coisas», refere à rádio portuguesa.

D. Luiz Lisboa reconhece que é uma voz incómoda, mas diz que é hábito que a Igreja o seja, na defesa dos mais vulneráveis. «Quando a Igreja faz essa defesa, fala a verdade, procura defender os direitos das pessoas e isso sempre traz problemas para os membros da Igreja, porque quem vive na mentira não gosta da verdade, quem pratica corrupção não gosta de ser cobrado por isso. Então, essas pessoas sentem-se incomodadas. Sejam do Governo, sejam de organizações, sejam quais forem, pessoas que ocupam cargos... Isso acontece em todo o lado, e acontece também em Moçambique», afirmou.

Reações e sucessão 
Em comunicado, citado online pela DW, portal de notícias de Moçambique, a Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) agradece a Luiz Fernando Lisboa pelo «abnegado trabalho pastoral» mesmo «em tempos e situações difíceis».
 
Por seu lado, a Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB) reagiu a esta nomeação com uma nota divulgada online. «Enaltecemos a sua presença missionária como bispo em Pemba, diocese situada numa região marcada pela guerra que já causou a morte de mais de 2 mil pessoas e mais de 500 mil deslocamentos. Especialmente em Cabo Delgado, alvo constante de ataques. Destacamos também a sua contribuição à Conferência Episcopal de Moçambique, servindo-a como secretário-geral e coordenador do Departamento Social», refere a CNBB sobre o novo arcebispo.
 
Sobre o sucessor, e não querendo especular sobre nomes, Paulo Costa espera que seja alguém «comprometido com as necessidades do povo e das pessoas em geral, e alguém que possa contribuir para um processo de pacificação». «Sabemos que Cabo Delgado vive um contexto de guerra e conflito, mas, para além desse processo, há um processo de pacificação a longo prazo e de diálogo inter-religioso, e aí o sucessor do D. Luiz terá uma missão ainda mais complexa do que a que o D. Luiz teve nos últimos 3 ou 4 anos, que foi trazer a voz do que estavam silenciados», refere este responsável.
 
Sobre o agora antigo bispo de Pemba, muito se especulou sobre um alegado isolamento que teria dentro da CEM, não recolhendo o apoio de todos os bispos nesta sua forma de agir e atuar. Não se referindo a isso, Paulo Costa afirmou, no entando, que considera importante que a CEM «não deixe os bispos isolados». «A sucessão tem de ser uma peça que encaixa no puzzle, e não alguém solitária», apela.


 
No terreno, ajuda humanitária não chega às populações
A situação continua muito grave no terreno. Apesar dos ataques terroristas terem diminuído nos últimos tempos, as chuvas fortes que se fazem sentir na região dificultam a vida dos deslocados, que, sem casa e sem terra, lutam para conseguir sobreviver. «A partir do momento em que deslocamos as pessoas e elas deixam de ter o seu sustento na agricultura, as coisas não se resolvem de um momento para o outro. Com as chuvas, a situação está mais débil, e é isso que nos preocupa neste momento, além da incapacidade de a ajuda humanitária chegar ao terreno».
 
E porque é que a ajuda não chega? «Há ajuda que não está a ser desbloqueada porque não está formalizado esse reconhecimento de pedido de ajuda humanitária por parte das autoridades moçambicanas», critica Paulo Costa, lamentando as «questões burocráticas, diplomáticas e processuais que levam demasiado tempo quando alguém não tem o que comer para o dia seguinte».
 
Cabo Delgado fica no outro extremo do país, e, por vezes, diz este responsável, «é difícil que os que estão longe sejam vistos da mesma maneira que aqueles com que nos cruzamos à porta».
 
 NOTA: notícia atualizada a 13 de fevereiro com as declarações de D. Luiz Lisboa à Rádio Renascença. 
 
Texto: Ricardo Perna
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