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Ver o céu
20.07.2020
Conta-se que George Clemenceau, famoso estadista, jornalista e médico francês, estava a observar da sua janela que uma grande árvore lhe tirava quase toda a luz natural do seu escritório na rua Benjamin Franklin, em Paris. O jardim onde crescia esta árvore pertencia ao colégio dos jesuítas, conhecido por Liceu São Luís Gonzaga. Um dia o superior decidiu mandar abater esta árvore frondosa. E Clemenceau, todo contente e para lhe agradecer escreveu-lhe: «Desejo agradecer-lhe, caro padre – e bem que o posso chamar de padre nestas circunstâncias, apesar de nutrir pouca simpatia pela Igreja – por me ter dado mais luz durante o dia.» Ao que o superior respondeu: «É natural, meu filho – e bem que lhe posso chamar de filho porque para além de lhe ter dado a luz do dia também o fiz ver o céu.»

Nas circunstâncias em que vivemos bem precisamos de mais luz para os nossos dias e também de quem nos ajude a ver o céu.
Nuvens cinzentas e carregadas é o alerta do que nos espera, que a Conferência Episcopal Portuguesa nos faz no mais recente documento, Recomeçar e Reconstruir: «Como consequência indireta da pandemia Covid-19, espera-nos uma crise económica e social de uma dimensão que não tem paralelo na história mais recente. É de prever que o desemprego e o agravamento da pobreza atinjam níveis muito elevados. Sinal bem evidente da dimensão dessa crise são já os pedidos de ajuda para satisfação das mais básicas necessidades alimentares, que se têm multiplicado como nunca se viu no passado recente. Alguns desses pedidos vêm de pessoas que nunca esperariam vir a encontrar-se um dia numa situação destas.»

Mas o mesmo documento também apresenta raios de sol que ajudam a ultrapassar essas circunstâncias: «Uma lição prioritária que da tragédia desta pandemia podemos colher é a do que ela representa como redescoberta do valor inestimável de cada vida humana»; «Importa ainda sublinhar que a crise pode, em larga medida, ser enfrentada, no que de mais dramático encerra, com um esforço acrescido de solidariedade, também ele sem precedentes»; «Importa também sublinhar que as vidas que foram preservadas, e que importa ainda preservar, são de pessoas de todas as idades, mas, sobretudo, vidas de pessoas idosas ou com outras doenças que não as impediam de viver mais tempo»; «Serviço essencial acima de todos revelou-se, mais uma vez o da família, primeiro e último reduto de apoio nas situações mais difíceis».

E com um saudável realismo, os bispos portugueses alertam para os pontos fulcrais sobre os quais é necessário não perder o norte: «Convirá não cair na ilusão de que do Estado se pode esperar a superação da crise sem o contributo da iniciativa e criatividade da sociedade civil, quer no plano dos apoios sociais, quer do relançamento da economia. Seria uma forma de desresponsabilização da sociedade civil esperar passivamente pela intervenção do Estado em todos os domínios»; «Não bastam ajudas esporádicas e ocasionais, movidas por emoções momentâneas. São necessárias ajudas, em dinheiro, bens ou trabalho voluntário, que sejam contínuas, consistentes e impliquem até renúncias significativas»; «Esta pode ser uma ocasião para construir um sistema que coloque a pessoa humana no seu centro e não seja gerador das desigualdades que o sistema que nos rege tem gerado»; «Esta pode ser uma ocasião para, corrigindo os malefícios da globalização, como de há muito se diz sem que tal se tenha concretizado, implementar a globalização da solidariedade, para além da globalização económica».

Acreditemos, é possível ver o céu, mas apenas quando vamos para além das aparências, do imediato, do egoísmo, dos preconceitos. E quando somos capazes de ver e fazer o bem à nossa volta. Mesmo diante das contrariedades e dificuldades. Afinal, o bem sempre foi um grande propulsor nas nossas vidas e sociedade.