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Vitamina D - D de debate e dúvida
14.06.2020
No final do mês de abril deste ano foi conhecido um novo estudo realizado em Portugal que indica que dois em cada três portugueses têm falta de vitamina D, conhecida como a “vitamina do sol” ou a “vitamina dos ossos”. A vitamina D e a abordagem a várias das questões que a envolvem tem dividido e deixado dúvidas entre a comunidade científica e médica. A época que atravessamos servirá para se chegar a conclusões?
 
Foto: Fixabay/Siviarita

Primeiro, os pontos que parecem reunir algum consenso. A vitamina D (que na verdade é uma hormona) é benéfica, ajuda a prevenir o raquitismo das crianças e a desmineralização dos ossos dos adultos, nomeadamente com uma idade mais avançada. Também há acordo que a melhor maneira de obter a mesma vitamina é através da exposição solar; o próprio corpo trata do resto. Ainda que a melhor hora para a exposição solar para a produção da vitamina D fosse idealmente por volta do meio-dia, o conjunto dos especialistas reconhece que o risco de lesões na pele provocados por comportamentos de risco face ao sol (e, consequentemente, agravado em 90% de poder contrair cancro cutâneo) é muito grande e ultrapassa os benefícios da obtenção da vitamina D. Por isso, também não há muito a discordar de que a melhor solução para a obtenção de vitamina D através da exposição ao sol sem protetor solar é de alguns minutos, cerca de 15, e fora das horas perigosas (entre as 12h e as 16h). A Organização Mundial de Saúde indica no seu sítio de internet que: «alguma radiação UV é essencial ao corpo, uma vez que estimula a produção de vitamina D. (…) Não há dúvida de que um pouco de sol faz bem. Mas 5 a 15 minutos de exposição solar das mãos, cara e braços, duas a três vezes por semana durante o verão é suficiente para manter os níveis de vitamina D elevados.»

A ingestão de vitamina D através da alimentação é limitada, pois a mesma só se obtém através de peixes gordos, produtos lácteos e alguns cogumelos. A toma de suplementos de vitamina D também é vista como benéfica por todos, mas só em casos muito específicos (relativamente aos benefícios de suplementação para a população em geral, já não há acordo), como grupos de risco com outras doenças pré-existentes e grupor em condições muito específicas, como os idosos institucionalizados (com uma exposição solar mais reduzida).
A partir daqui, surgem muitos pontos divergentes, nomeadamente ao nível dos benefícios e dos riscos de níveis elevados ou baixos da vitamina, dos testes à população para medir os níveis da substância, dos valores considerados para a insuficiência, dos benefícios da suplementação, dos perigos da não suplementação, da relação causa-efeito da vitamina D com outras doenças e como cura.
É assim que temos, por um lado, quem veja necessidade, perante estudos como este, de se debater a questão da vitamina D, da necessidade de avaliar estes resultados de carência como um problema de saúde pública, da importância de uma suplementação (dificilmente tóxica, argumentam) para manter os níveis “normais”, na necessidade de encarar esta vitamina como um importante fator protetor preventivo de outras doenças e adjuvante no tratamento de outras.
Do lado dos que ainda têm muitas dúvidas e dizem ser necessárias mais evidências, um outro olhar: os que indicam que os testes realizados aos níveis de vitamina D não são totalmente fiáveis, porque podem existir diferenças de valores, consoante o kit de recolha, por exemplo; os que consideram que os níveis de vitamina considerados insuficientes ou deficientes e os valores geralmente apresentados como insuficientes podem afinal, ser normais, entre muitas outras dúvidas.
Dos dois lados, a capacidade de desmontar e encontrar fragilidades nos vários estudos efetuados, seja nos que concluem que existe deficiência de vitamina D como os que não, os que concluem que ela é benéfica para prevenir quedas e fraturas e os que concluem que não, os que encontram evidências de que pode prevenir cancro, doenças respiratórias e os que não.
Com um aumento significativo das prescrições de exames para determinação de valores de vitamina D e a venda de suplementos de vitamina D em 2017 e 2018, a Direção Geral da Saúde, em conjunto com a Ordem dos Médicos, publicou uma norma para as boas práticas na prevenção e tratamento de suplementos da vitamina D que deixam transparecer as dúvidas existentes e que indicam que a suplementação, assim como os testes, não devem ser feitos indiscriminadamente. «Apesar de existir alguma evidência de que baixas concentrações séricas de Vitamina D se podem relacionar com várias doenças, não existe ao momento atual evidência do efeito benéfico da sua correção sobre os diferentes outcomes, pelo que não se podem fazer recomendações gerais sobre a suplementação ou rastreio da deficiência de Vitamina D».
 
 
Texto: Rita Bruno


 
Artigo publicad na íntegra na edição de junho de 2020 da FAMÍLIA CRISTÃ
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