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Viver a paz para educar na Paz
27.02.2020
Pode parecer uma utopia, andar por aí a apregoar a paz no mundo. Principalmente se somos um mero professor numa escola no Iraque, Líbano ou Egito, em plena Primavera Árabe. Mas Carlos Palma não é um homem qualquer, e nem o é a sua história, que se liga de maneira indelével ao projeto «Living Peace», de educação para a paz.


Antes do projeto, o contexto. Carlos Palma nasceu no Uruguai e foi professor em escolas particulares em países que passavam por situações de conflito graves. «Eu cheguei a Jerusalém, onde fiquei 12 anos a dar aulas, e nos primeiros dias com a turma fiquei impressionado com um aluno de dez anos que levanta a mão e me pergunta “professor, pode dizer-me o que é a paz?” Eu não percebi bem o que ele queria dizer e ele explicou “o que é que poderemos fazer um dia, quando não tivermos guerra?” Achei isto muito impressionante, porque percebi que havia uma geração de crianças que nasceu e cresceu numa situação de guerra», conta Carlos Palma.

Este foi o primeiro de vários “confrontos” com a falta de paz no mundo que teve. Anos depois, quando estava no Cairo, viu a mãe de um dos seus alunos morrer à sua frente enquanto procurava o filho na praça Tahrir, durante a Primavera Árabe.

Essa foi a gota de água, e a partir daí tudo mudou. «Lembrei-me de uma coisa que se fazia há algum tempo nos Focolares, que era o “dado do amor”. E eu pensei “porque não adaptar este dado para um dado da paz” e colocar frases universais com valores para vivermos a paz. À noite preparei o dado, e na manhã seguinte apresentei o dado às crianças e disse “cada manhã, um estudante diferente lança o dado e a frase que ficar por cima é o programa para vivermos para a paz hoje na turma, e dez minutos antes de irmos embora vamos parar a aula e vamos partilhar como vivemos hoje para a paz”. E, além disso, todos os dias, ao meio-dia, fazíamos um time out, um minuto de silêncio pela paz».

Parecia simples, e a implementação básica demais, mas mesmo assim nunca esperou um resultado tão imediato. «Os rapazes, que esperavam o toque para ir jogar futebol no recreio, começaram a ficar na sala de aula para ajudar os que eram mais fracos em Inglês, ou que tinham mais dificuldades em Matemática. Os pais começaram a ver uma mudança e começaram a ligar-me, um após o outro. Uma mãe ligou-me e disse-me “desculpe, fale com o meu filho, que está a chorar porque quer ir à escola ao domingo e não se convence que está fechada”, ou outra mãe que me ligou chateada a dizer que a educação do filho era da responsabilidade dela. Perguntei porque é que ela me dizia aquilo e ela explicou que “eu preparo todas as manhãs uma sandes para o meu filho comer no recreio, mas todos os dias quando chega a casa e pergunto se comeu, ele diz que deu a outro, e eu quero que o meu filho coma”. Eu expliquei que não sabia nada disso, e falei-lhe do “dado da paz” e do que estávamos a viver. Ela escutou atentamente e no final disse “já percebi, Mr. Carlos. A partir de amanhã vou dar ao meu filho cinco sandes”. E isto para mim foi uma surpresa, porque os pais começaram a viver esta dinâmica de educação para a paz», conta, de uma forma tão surpreendida hoje como quando tudo começou, há sete anos, naquela escola do Cairo.


Depois de conquistar os alunos, era preciso conquistar os professores, e o primeiro impacto não foi famoso. «Quando eu andava nos corredores da escola, chamavam-me “Sr. Ingénuo”, porque eu queria mudar o mundo com um dado de cartão. Mas quando eles viram mudanças nas crianças, também a nível académico, porque todos se ajudavam, mas também a nível de bullying, que desapareceu completamente, os professores começaram a interessar-se e a fazer a experiência do “dado da paz” e do time out», recorda.
De uma turma de poucas crianças, o projeto espalhou-se como fogo em mato seco e chega hoje a mais de 1,5 milhões de crianças em todo o mundo. Escolas, associações, movimentos, são muitos os que aderiram a este projeto, com resultados muito positivos. Em Braga, por exemplo, o jardim de infância de Esporões trabalha há seis anos com este projeto. «Todos os dias, logo de manhã, lançávamos o “dado da paz” e todos, crianças e adultos, comprometíamo-nos em viver (e a lembrar entre nós) a regra do dia», conta Teresa Graça, que trabalha no jardim de infância. Os resultados, defende, estão à vista. «A eficácia desta ferramenta preciosa, que é o “dado da paz”, na autorregulação comportamental da criança, na promoção da capacidade de identificar e exteriorizar os próprios sentimentos e emoções, mas também os dos outros e no desenvolvimento de um ambiente harmonioso e securizante» foi o que fez a escola aderir, com resultados muito satisfatórios para os seus responsáveis. «A transformação da escola como um todo e até das famílias, pelo modo como nos relacionamos, adultos e crianças, e também o prazer e o ardor de levar a alegria que descobrimos dentro de nós, com a vivência da paz, a muitos outros, para que, como nós, possam ser felizes e fazerem felizes os outros», refere esta responsável do jardim de infância.
Em Portugal são mais de 100 os locais onde o projeto está a ser implementado, e em todo o mundo gerou-se uma rede de parcerias e projetos, aberta a quem queira aderir, que aprofunda esta noção do trabalho pela paz. «São sugestões de projetos em conjunto com outras organizações, e as escolas podem fazer o que quiserem, se quiserem. Desde projetos com os mais pequenos a fazer pombas de origami que são enviadas para escolas de outros países ou continentes, ou mandalas [desenhos geométricos que representam a relação entre o homem e o cosmo] que são pintadas em conjunto nas turmas e depois enviadas, com mensagens de paz no verso, para crianças que estão no hospital em fase terminal noutros países, para decorarem o seu quarto ou os corredores onde circulam», conta Carlos Palma.

Carlos é católico e pertence ao movimento dos Focolares, mas o projeto não tem uma inclinação católica, de todo, embora ele sinta o «dedo de Deus» em tudo o que se vai passando. «Temos jovens de todas as religiões. A maioria serão muçulmanos. E há muitos não-crentes que se identificaram com estes valores. No “dado da paz” não aparece a palavra Deus, para que todos se identifiquem com o dado. O importante é a grande universalidade do projeto», garante.
Com 61 anos e envolvido de corpo e alma neste projeto, Carlos Palma não sabe o que o futuro lhe reserva. «Eu escuto a voz do Espírito Santo, porque este projeto é uma surpresa atrás de outra. Em Portugal temos uma prisão de mulheres e uma de homens que vivem esta realidade do “dado da paz” e o lançam todos os dias. Eu nunca imaginei uma realidade assim. Ou conventos de clausura. Deus é o protagonista e eu não sei o que irá preparar para o próximo ano», confessa.


Pode ler este artigo completo na edição de janeiro da sua revista Família Cristã.
 
Texto e fotos: Ricardo Perna
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