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Voltar a falar da paternidade (da figura do pai) no pós-pandemia
18.03.2022
Vivemos hoje, indiscutivelmente, do lado de cá de um novo período da história da Humanidade. Não podemos negar que a pandemia da Covid-19 acelerou um pouco mais este processo, empurrando-nos a todos para dentro deste assombroso túnel, de sentido único e marcha obrigatória. Mas não fomos de todo surpreendidos. Já há muito que se pressentia este mal-estar. Depois de um longo período, de quase três séculos, marcado por um otimismo antropológico notoriamente exagerado, a própria sociedade, sem se dar conta, foi dando sinais da sua decadência e, consequentemente, de uma transição. E não faltaram, neste sentido, vozes proféticas que, durante todo esse processo, nos têm alertado para esta situação, sugerindo caminhos a percorrer para que, como diz J. Baudrillard, «o mundo não se transforme sem nós e finalmente não se torne um mundo sem nós».

Em 2015, por exemplo, o Papa Francisco denunciava, na Laudato sí, o modo desordenado como os homens estão concebendo a vida e suas consequências para as relações humanas e o meio ambiente, tema que, em 2020, retoma na Fratelli tutti, mostrando como o não reconhecimento do outro, como irmão e membro da mesma família, viajantes no mesmo barco, nos leva irremediavelmente ao fracasso, à autodestruição e ao naufrágio da própria Humanidade. «Ninguém se salva sozinho» – diz ele muitas vezes. 

Chegados a este ponto, podemos perguntar: não terá toda esta crise uma raiz mais profunda? Como projetar ideais de fraternidade numa sociedade que rejeita qualquer vínculo filial? Falar da fraternidade e de todas estas problemáticas, obriga-nos a voltar atrás, a voltar à questão lancinante que, há muito, temos vindo a adiar e a ignorar: a necessidade urgente de recuperarmos a figura do pai e todo o seu significado antropológico-espiritual.   

No meu livro Paternidade humana reflexo da paternidade divina, partia exatamente da constatação de que vivemos hoje numa sociedade sem pai, onde a figura do pai está simbolicamente ausente, removida. A sociedade das últimas décadas, na luta contra os resíduos de modelos autoritários, contra os estereótipos culturais, contra a subjugação da mulher; e na procura sedenta pela sua libertação e emancipação, matou o pai, despindo-o de todo o seu valor e potencial, ao ponto de ele hoje ser, como diz o psicanalista italiano Massimo Recalcati, «não tanto um adversário a combater ou um déspota de quem é preciso livrar-se: trata-se, simplesmente, de uma figura privada de qualquer interesse ou atração». Já não é uma marca de valor para avaliarmos o sentido, um referencial para delinearmos a fronteira do bem e do mal, da vida e da morte.

Contudo, não nos iludamos: sabermos ser irmãos uns dos outros implica sabermos ser filhos do mesmo pai, herdeiros da mesma história e do mesmo destino. Sem este reconhecimento não é possível uma vida fraterna. E mais: perdemo-nos diante do próprio mistério da vida. Como diz o Cardeal Tolentino Mendonça, nós «não podemos ser sem pai […]. É ele que nos introduz na experiência da vida, na realidade, tornando-nos capazes de opções de liberdade». Como realidade que está dentro, no interior de cada pessoa, esta figura é quem nos ajuda na fundação do nosso eu. É uma espécie de representação psíquica, que nos oferece um modelo para cimentar a nossa arquitetura interior. Neste sentido, estamos já a ver as consequências da sua ausência. Usando as palavras do Papa Francisco, na Amoris Laetitia: «a sua ausência penaliza gravemente a vida familiar, a educação dos filhos e a sua integração na sociedade».

E se falamos da morte do pai, no quadro psicoafectivo, estamos também perante um grande desafio teológico-espiritual. Na Patris corde, o Papa Francisco recorda-nos que o pai é o sinal, «a sombra do Pai Celeste», desse Outro que surge diante de nós como um mistério, de quem Jesus Cristo nos fala como seu e nosso Pai. Mas como falar disto num tempo marcado pela emancipação da religião do filho, em que os homens buscam a sua redenção nos ídolos do mundo, longe daquele que é a nascente e a foz de tudo quanto existe?

A sociedade pós-covid deve levar muito a sério os desafios da vocação humana e repensar o papel e o lugar específico do homem e da mulher na família e no mundo. Cada um com a sua missão, caminhando juntos, na mesma estrada, com o mesmo horizonte.  Só assim poderemos sair deste labirinto de angústias e incertezas.