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Women power!
08.03.2020
Estava ali dentro dela. E o marido desejoso de não perder nada daquela espera. Reparavam como aquela criança lhes trazia uma novidade. Não tinha havido nada antes que fosse tão dos dois e tão impossível de viver de forma igual. Crescia nela e nenhuma descrição que lhe quisesse fazer dizia tudo sobre aquele mistério de uma vida dentro de si, diferente de si, que era também fruto dele, mas que ele tinha que esperar para poder tocar, enquanto ela já não podia dizer quem era, sem o seu bebé, que se confundia consigo mesma, confundindo-a de alegria e de espanto.

Nessa noite, ele adormeceu primeiro. O bebé estava grande e irrequieto. Ela levantou-se e o marido deu um suspiro no sono. Que sorte que tinha por ele estar tão unido a ela e com tanto entusiasmo! Mas ainda assim estava ali a dormir enquanto ela e o filho dos dois eram inseparáveis, cheios de segredos que se passavam no seu seio de mãe. Foi para a sala, pensativa.

Lembrou-se de uma conversa com o padre que os tinha casado. Ser pessoa é ser relação com um outro eu, em reciprocidade, dizia ele. Na origem, o homem é para a mulher e a mulher para o homem, os dois unidos continuam a criação de Deus. Não e só cada um que é feito à semelhança de Deus, é na própria comunhão dos dois que está essa semelhança. O domínio do homem sobre a mulher corrompe o desígnio de Deus, é fruto do pecado original. É justo lutar contra isso, mas não à custa da masculinização da mulher, porque se perde o que é próprio de cada qual. A diferença entre homem e mulher é uma riqueza a preservar. Na Bíblia, Deus é muitas vezes comparado a uma mãe cheia de amor e cuidados pelo seu filho. É como se o mistério de Deus se compreendesse melhor através de alguns traços com que Deus criou a mulher. Isso percebe-se melhor em Nossa Senhora. Ela aceitou que crescesse dentro de si um filho de Deus. Ninguém teve com Ele uma união assim. «Eis a serva do Senhor», e assim nos ensina que servir é reinar. O Magnificat é um hino à vocação da mulher na criação. Gratidão, humildade, verdade, anúncio da bondade do Senhor, certeza de uma vitória que não é a dos poderosos deste mundo, voz intrépida do povo. Grande mulher!

Pensou a seguir em várias discussões animadas sobre ser mulher, que variavam conforme os ambientes. Umas eram do tipo “guerra dos sexos” com cada um a defender o seu lado. Divertido, mas não levava a parte nenhuma. Mais tristes eram as que diziam que o sexo é uma construção social e cada um tem que decidir a pessoa que quer ser. Mas como, se estava a descobrir tanto de si com a maternidade e com o facto de o marido viver o mesmo facto com outro ponto de partida, ele de fora, ela de dentro? E isso não era escolha nenhuma, mas sim um dado da natureza, presente e incontornável.

Não vinha o sono e pensou no seu trabalho de que tanto gostava. Estava a correr lindamente até à gravidez. Todos muito simpáticos, mas tinha sentido um afrouxar da aposta nela, que lhe parecia tão injusto. E agora? E depois? Olhou para a imagem de Nossa Senhora do Ó, que o marido lhe tinha oferecido uns meses antes. Pediu-lhe uma ajuda, de mulher para mulher.

Confiar na maneira como Deus a tinha criado era a melhor escolha; decidir o rumo da sua vida a partir do desejo de amar sem medida era a única maneira de ser feliz; ser leal com o que lhe estava a acontecer, sem ideias feitas, levando a sério a sua experiência, com a ajuda daqueles em quem mais confiava, era o caminho mais livre. Piscou o olho a Nossa Senhora e disse-lhe baixinho; “Women power!” Achou que era uma bela oração da noite e voltou para o lado do marido.